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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Depois de tudo...

Depois de tudo eu só quero culpar alguém.

Depois que a água já jaz no chão, depois que meus pés se sujaram de barro, depois que minha roupa se sujou. Eu só quero alguém para culpar....

Olho para as faces que nem conheço, os modos como olham para mim e como se movem. Cavo suas almas e vejo nas mais intrínsecas essências de seus corpos os defeitos que quiseram esconder. Com meu dedo indicador elejo um idiota qualquer e para mim basta. Basta que eu saiba seus medos, suas angústias, seu ponto mais fraco e com meu dedo cutuco. Provoco de início uma pequena dor e depois aprofundo. Meus cutucões ficam mais fortes e difíceis de ignorar. Ouço-o gritar, ouço o choro que provoco, ouço o gemer de sua carne e lábios. Quando ele chora de dor, chora vendo seu mundo cair através de seu ponto fraco eu me retiro. Deixo-o com suas dores para enfrentar o mundo sozinho, porque prestara tanta atenção em meus cutucões que nem se lembrou de tudo. Sozinho é que te deixo, no silêncio da dificuldade que será para ti frente aos olhos dos outros. É sozinho que te deixo para que me sinta forte quando o vir andando cabisbaixo. Sozinho é que te deixo para que me sinta feliz ao vê-lo chorar. E assim sozinho que decidi que tu viverás. Não terá chance de ser feliz porque eu escolhi por você. Viva através de minhas escolhas, portanto. Viva com medo que seu ponto fraco seja de novo descoberto, porque eu fiz isso. Porque eu disse que você não tem escolha de ser, você não tem escolha de existir, não tem nada além de sua solidão vazia. Veja como vivo superior a você, sem medos, seguro das coisas que posso fazer e inveje-me. Sou superior, existo e escolho, enquanto você só tem o silêncio, a escuridão e a solidão soturna.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ali logo em frente.



Então, depois de tudo fui tomar um banho. Pela janela do banheiro eu vi a noite soturna invadindo as ruas. Liguei o chuveiro, a água demorou a esquentar. Adequei a temperatura do modo de sempre, logo o vapor encheu aquele cômodo.Esfreguei-me, sentindo as essências usadas por seu corpo e senti o gosto de uma gota que não saía do chuveiro.


Acabei.


Colei a cabeça na cerâmica gelada enquanto desligava com vagarosidade a ducha. Abracei aquela parede do banheiro, entregando a ela o peso do que sentia. Foi aí que me dei conta de como eu me sentia: Alguém ainda quente, me atirando a um monte de cerâmicas frias e imóveis, que não me acolhiam com o mesmo calor.


Comecei a me secar. Meus pensamentos me levaram até o futuro. Eu, a essência das lembranças e a frieza.Nós naquele mesmo chuveiro e eu apenas esperando o próximo dia para sorrir novamente,


Para ver pessoas que me deixam feliz,


Pessoas que me deixam triste


Pessoas que me deixam....
Imagem retirada do blog A voz do povo

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A cerâmica


Ele era o homem mais rude daquela cidade, todos o conheciam, mas poucos chegavam perto. Apenas um o fazia, apenas esse tinha coragem e era autorizado a se aproximar.
Naquele dia o senhor Sérgio estava cabisbaixo, diferente da maioria dos dias em que sempre estava altivo e com ar de superioridade. O rapazinho então se aproximou,sentou-se junto a ele na escadinha da varanda em que sempre conversavam. Ficou em silêncio durante algum tempo, esperava que como sempre Sérgio tomasse a iniciativa e viesse dar-lhe mais uma lição de vida que ele aprendera durante os "longos e sofridos anos" que vivera. Contudo aquele dia parecia mesmo diferente. Sérgio não disse nada, apenas se manteve olhando para o chão.

-Boa tarde, senhor Sérgio!! Está tudo bem como senhor??

O menino falou com tom suave, para não sofrer uma daquelas más respostas que ganhava vez ou outra nos dias de mau humor do senhor de meia-idade.

-Boa tarde, rapaz!!

Mais alguns instantes de silêncio. Parecia mesmo que Sérgio não ia dizer nada. Arriscando tomar uma má resposta o rapaz provocou-o.

- Senhor Sérgio, não vai me contar mais nada de seus "longos e sofridos anos"?

Sérgio olhou-o, mas em seus olhos não estava a superioridade costumeira.

- Hoje não, meu rapaz. Hoje lhe direi de algo que não aprendi. Talvez tenha feito que eu vivesse os meus longos e sofridos anos. Enquanto o esperava para nossa conversa eu olhei para o chão. Sabe, eu não olho para o chão sempre. Gosto da altivez, olhar o horizonte que levam os nossos sonhos.

O rapaz estava assustado. Sérgio parecia mesmo tocado com algo. Ele apenas se manteve em silêncio, atento às palavras do homem.

- Pois então, hoje eu olhei para o chão, eu percebi que essa cerâmica que está na minha escada é cheia de pontinhos, pontinhos esses que não me deixam cair quando está molhado. Isso é muito bom, porque um homem da minha idade, se cair...bem, você sabe. É provável que eu fique com alguma parte do corpo quebrada.
- É verdade....
- Não terminei ainda. Só me escute!
- Me desculpe...
- Tudo bem! Mas então, ainda olhando para essa cerâmica eu vi que os mesmos pontinhos que não me deixavam cair quando estão molhadas são os pontinhos que fazem com que a sujeira se agarre e a faça ficar cada vez mais feia e mais grossa. Vai aos poucos perdendo o seu brilho por causa desse lodinho verde que cresce nela.

O rapazinho estava escutando, mas até agora não tinha entendido nada. Sérgio não era um homem que se prestava a observar esse tipo de coisa. Ele sempre falava do horizonte, de onde os sonhos podiam levar-lhe. O que, na verdade, era uma mentira, porque ele jamais saiu daquela pequena cidade, sempre esteve sozinho e tinha poucos amigos.

- Acho que não te compreendi, senhor!

Sérgio sorriu. Ficava estranho em sua face aquele gesto bonito, mas por um instante a beleza permitiu-o ficar como alguém que tinha simpatia.

- Quando eu namorava. A minha última namorada na verdade. Ela era linda, e meu amor por ela era minguado como a lua. Mas ela me amava, me amava tanto que sofria com meu jeito. Nós terminamos aqui mesmo. Nessa porta, nessa escadinha. Naquela época isso era concreto, mas se assemelhava em muita coisa com essa cerâmica. Enquanto ela terminava comigo, ela olhava para o chão. A última frase que ela disse para mim foi como uma maldição. Ela disse: " Você é como a escada de sua casa.A diferença é que a escada ainda tem jeito.". Na época eu não entendi nada, me pareceu uma coisa tão idiota. Uma burrice infantil da parte dela. Mas hoje, quando olhei para o chão eu a entendi. Eu jamais havia olhado para a minha escada e por isso eu não cuidei dela. Eu jamais deixei que alguém olhasse para mim, portanto ninguém cuidará de mim também.E a cada dia que passar a sujeira vai se agarrando em mim e na cerâmica.Ficamos ,a cada 24 horas, mais feios e sem brilho.

Ele ainda estava com um sorriso no rosto. O rapaz achou estranho, pois ele estava triste por Sérgio.

- Tudo bem, rapaz, vá cuidar da porta de sua casa.

Sérgio levantou-se e entrou para sua casa.

Imagem retirada do Blog Bueno

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quem entende?

- Você não gosta de sair, não é?
- Não. Não precisa nem me chamar. Não gosto de festas, nem de sair com seus amigos. Pode ir, vá sozinha! Tudo bem!

Alguns dias depois:

- Ai ai, meus amigos me chamaram para sair. Eu vou tá bom. Nem vou te chamar, já sei que você não gosta de sair!
- É verdade!

Em pensamento " Que droga! Ela me exclui de tudo! Estou triste, não faz questão de minha companhia. =/ "

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

À meia luz

Meia noite. Nada para pensar, nada para fazer.
O computador está ligado. O barulho que faz enche todos os cantos da casa. Sozinho. Perdido no escuro. O vento bate na janela, parece querer entrar, como um ladrão invadindo uma casa sem cautela. A tela do computador está em branco. O cursor pisca na tábua branca onde minhas ideias deveriam estar. Não há ideias, não há inspiração.
Quietude, meus sentidos se apuram, querem perceber algo digno de ser escrito. Cada barulho passa a ser ouvido. Pingos das torneiras, passos de cães na cerâmica, latidos, pequenos estalos. O que há lá fora? É noite e estalos ao redor da casa não deve ser boa coisa.
O que há lá fora? Tento voltar, a busca pela inspiração achou o medo.
Sim, os estalos e o arrastar de correntes. Mas não havia correntes!
O que há lá fora?
Me concentro no computador, a curiosidade de saber das coisas fora das quatro paredes que me cercam me leva ao medo. Tento fugir do medo , mas me vejo sozinho.Como se vence sozinho?
Não quero dormir, e se existe mesmo algo lá fora? Se eu dormir não saberei o que vai acontecer.E conseguirei cair no sono por acaso?
O relógio demora, quando é que vai terminar mais uma volta? Tic, tac, tic, tac......está contando o tempo dos estalos? Onde foi que que deixei a corrente de minha cadela?
Não vou lá fora!
Vou me deitar. Vou pensar e, outras coisas até cair no sono. Mas há alguma coisa lá fora? Será que há mais coisas aqui dentro do que lá?
Tic-tac, estalos, janela, correntes.......

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Maybe true

"Um pequeno menino, com olhos bondosos, vira-se para seu pai. Uma daquelas dúvidas de criança.

- Papai, posso confiar em todo mundo?
O pai sorri, abaixa-se e fala naturalmente como se fosse a coisa mais simples de se dizer.
- Claro, meu filho. Todas as pessoas têm corações bons.
O filho acredita e sorri, os olhos brilhando. Ninguém precisa se esconder."

O relógio toca. Um homem abre os olhos, está de mau humor.

- É...o sonho acabou!

domingo, 22 de agosto de 2010

Silêncio falante...

Junto a uma maleta marrom, alguém permanecia sentado num banco da praça, debaixo da sombra aconchegante da arvore. Os olhos fixados em algum ponto que talvez nem mesmo existisse a não ser em seus próprios pensamentos. Curioso, um jovem se aproximou um pouco tímido iniciou:
- Com licença,posso me sentar?
O homem virou-se a ele com um sorriso e aquiesceu. O jovem sentou-se e esperou, o silêncio que reinou o deixou incomodado. O homem apesar de sorrir nada dizia, apenas olhava para aquele mesmo ponto de antes.
- Errr....senhor....
O jovem tentou interferir com suas palavras inseguras.
- O que tem a me dizer, meu jovem!? – O homem era cordial com a voz.
- Porque acha que quero dizer algo?
- Porque você iniciou a conversa e o silêncio te incomodou mais do que a mim.
- O silêncio o incomoda também?
- Somente quando fico comigo mesmo.
- Ah....
Novamente o silêncio brotou das poucas palavras e da cordialidade dos dois. Mas a falta do que falar também incomodava ao jovem.
- O dia está bonito, não é?
- Realmente, ficaria melhor se você conseguisse falar o que quer...
- Mas....mas...
- Te contarei uma história...
O menino calou-se e dessa vez sabia que viriam mais palavras, então apenas esperou que viessem ouvindo atentamente. O homem começou a sua história.
- Eu já viajei muito por esse mundo. Já andei com as estrelas a noite e voei com os pássaros durante o dia. Em uma destas viagens, quando passava por uma pequena cidade de aparência abandonada encontrei um pequeno moço, talvez da mesma idade que você. Era tão iniciante no mundo quanto as serelepes libélulas, só que muito diferente desses pequenos insetos ele não era nada serelepe. Na verdade, ele se sentava em um banco e esperava. Não sei ao certo o que ele esperava, mas ele esperava sempre. Nesse tal dia me sentei com ele, era um pequeno banco de madeira e estávamos sob a abobada de estrelas, um vento caloroso soprava sobre nós. Conversei com ele durante algum tempo, ele gostava muito de falar e ouvir, mas apenas sobre coisas. Me lembro bem de nossa conversa.......
“ – Então mora aqui há muito tempo?
- Não, eu não moro aqui. Eu espero por aqui, ainda não encontrei onde vou morar.
- Não entendo, onde você dorme?
- Durmo ali, naquela casa. – O jovem apontou para uma pequena casa de madeira com aspecto decadente.
- Então você mora aqui!
- De maneira alguma!
- As pessoas costumam considerar o lugar onde dormem como o lugar onde moram.
- Eu só não moro aqui!
- Certo....se diz é porque sabe do que fala não é?
- Imagino que sim.Sabe, aquela casa range muito, principalmente quando venta.
- Casas velhas rangem mesmo.
O jovem deu um sonoro riso.
- Porque riu?
- Não acho que casas velhas deviam ranger, deviam ficar mais aconchegantes. Onde eu morar vai ser assim. Quanto mais velha for a minha casa, mais jovem será. Porque ela será sábia.
- Uma casa é capaz de ser sábia?
- Claro que é!
- Ah....vai entender! Eu acho que tenho que partir.
- Pensei que fosse. O vento mudou, não é?!
- Meus pés querem andar!
- Entendo...Boa viagem!
- Obrigado.- o homem de maleta silenciou-se por algum tempo, como se pensando em algo - Não sei o que te desejar!
- Tudo bem, eu já lhe desejei!”
.......então depois disso eu comecei a caminhar e durante o meu caminho até aqui eu não tinha ficado em silêncio, sabe, vim conversando com pássaros, estrelas e pessoas. Apenas não tinha ficado em silêncio ainda e agora que parei, que fiz como ele e esperei eu descobri o que ele queria dizer.
- O que ele estava dizendo?!
O homem abriu um sorriso e levantou-se.
- Sabe, tem coisas que só se encontra sozinho e no silêncio ainda que incomode.
Recolheu sua maleta de couro marrom e saiu sem dizer adeus. O jovem permaneceu sentado, sem entender nada.
Então de longe, a voz como um eco da consciência, o homem revelou:
-Carreguei um pedacinho dele comigo e um pouco de mim permaneceu lá.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Winter



Faixas negras desenrolam-se pelo solo, como se saísse por debaixo da terra ou apenas surgisse de algum lugar fora daquele tempo.Um sopro frio, tão morto quanto animais enterrados na pútrida morada eterna dos sete palmos. Em caracóis desenhados por tal vento as faixas tomavam formas, enrolando-se em torno de si mesmas, tomando corpo e consistência. A morada negra, tal como a estátua se construía magicamente numa dança fúnebre de sopros ascendentes.Um capuz de conteúdo etéreo se formava, o anjo da morte sobre o túmulo de dezenas de vidas.Cada qual perdida ao seu toque. Por dentro da estátua formada algo tomava forma, mãos roxas, sujas de terra, saíam pelas mangas alongadas. Abaixo do capuz os cabelos branqueados de um futuro sem vida se desembaraçavam para fora, e por fim o rosto, a face da morte como era. Uma caveira, o crânio da efemeridade humana, o toque especial que gostava em particular. A mão direcionou-se aos orbes sem preenchimento do crânio, os dedos o puxaram, a máscara caía, a face era revelada. Olhos vermelhos que sorriam maliciosamente, sorriso que fitava o longe. Deixou o crânio cair,não necessitava daquilo, podia ter muitos. Começou a caminhar para fora do lugar fechado, sentia cheiro dos humanos, sentia os corações esperando o inverno final. Ouvia clamores pelo descanso. Os panos desenrolaram-se caminho afora guiados apenas pelas vidas que podia tomar.

Imagem, gentilmente afanada de Fernando Martin em epilogue.net

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Pandora



As engrenagens estavam secas, a lubrificação da maioria delas tinha se acabado havia anos, mesmo assim deviam girar.Os barulhos metálicos se expandiam pelo lugar, o girar seco das rodas os faziam aos montes emitindo sons que eram respondidos por barulhos iguais. Pequenos e quase invisíveis fios se desenrolavam por ali, tal como uma teia de aranha mais elaborada, encontrando-se em alguns pontos, ligando-se as engrenagens em outros, ganhando pequenos volumes disformes durante seu desenrolar lento por entre as peças de metal. Era tudo compassado e auto-suficiente, por isso a menina ficava a se balançar por horas, e dias e anos a fio sem se importar com nada. Em meio aquele tanto de fios, ela simplesmente tentava se divertir, mas o lento balançar do pêndulo nem ao menos divertia mais, era apenas algo para se passar àqueles pontos incontáveis de nada.

Antes os olhos brancos acompanhavam o desenrolar de grandes novelos, no âmago de tudo aquilo, mas se cansou dessa brincadeira e procurou achar diversão em outra atividade: amarrar coisas nos fios, como se fossem grandes varais, também era bom, mas de que valia, se a engrenagem só ficava agarrada por instantes? Logo se cansou disso também. Então achou seu lugar favorito, o balanço gélido de metal, fora divertido por algum tempo, mas agora era apenas mais um lugar. Um rangido pra lá, outro rangido pra cá, lento tal como brisas de janeiro. Os cabelos negros envolvidos na face nem se moviam, a cabeça baixa apenas esperava os momentos gloriosos de se ter paciência. Mais rangidos, menos desejos.

A menina estava inerte em seu assento nada glorioso, vestidos largados sobre o seu balanço eterno. Os fios caminhavam por entres as peças, travando suas próprias lutas contra o lugar, seguindo um caminho determinado por entre toda aquela vastidão de engrenagens secas.

Um sopro frio perpassou as vestes da menina, balançou-as de um modo único, e que ela aprendera a reconhecer. O corpo sem movimentos tomou uma alegria infindável, os olhos brilharam por debaixo dos fios negros enovelados em sua face. Um sorriso branco e maldoso apareceu. Como uma pessoa que reaprende a andar ela levantou-se, as mãos para baixo, os cabelos sobre a face como uma cortina negra para não deixar entrar luz. As pernas dobradas, um joelho virado para o outro. Soltou um suspiro gelado, colocando pra fora a fria vida que levava. Virou-se repentinamente para o lado, então o pêndulo se moveu em meio às engrenagens tempestuosas em seus barulhos repetitivos. Ela nem mesmo saiu da posição para encontrar outra mais confortável, apenas manteve-se ansiosa pelo o que vinha a frente. O pêndulo parou, o fio engrossado se fez ver emperrando uma das engrenagens. Debruçou-se sobre o fio do balanço, e moveu a mão numa pequena música particular e com um movimento, com apenas um dos dedos erguidos ordenou algo. O balanço moveu-se para o lado e voltou para o lado em que o fio estava. Uma grande quantidade de líquido vermelho esguichou para cima molhando o corpo dela e tingindo o objeto metálico. Um risada ecoou em meio as engrenagens e findou-se tão rápido quanto a alegria da mocinha, que voltou a sua posição entediada, apenas esperando o tempo certo para se banhar na morte de outros. Pandora vira o início daquilo tudo, e agora partilhava o final de cada um deles, entediada por vezes até que o sopro da morte lhe viesse avisar de sua próxima tarefa.

Imagem retirada de epilogue.net,galeria Alissa Rindels

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Um não sei....


Sentei-me em frente a essa máquina de escrever, é, quanto tempo eu não mexia nessa velharia, era um bloqueio constante e o computador estava mais atraente.Um universo dentro de uma máquina, é uma invenção que deve ser apreciada, até que ela te enjoe, isso é lógico. A fumaça do cigarro invade minhas narinas, preenchem meus pulmões, ela tem cheiro de doença, mas eu nem me importo.Logo a minha frente uma cama, ela está preenchida do meu amor, o que acabei de oferecer a uma mulher, a conheci algumas horas atrás, mas o que importa? Entrego-me com vontade e pulo fora rápido. Ela é muito bela, amassa os lençóis com vigor de um animal. Uma das melhores que conheci, já estive com muitas... Um vasto guardado de sentimentos e experiências, não que eu seja velho, apenas tive mais oportunidades de experimentar as coisas desse mundo.

Lá fora chove, a água escorre pelo vidro da janela, isso faz o quarto parecer mais aconchegante, isso me amedronta.Ela ainda está lá, na cama, enrolada em lençóis brancos e amassados, os cabelos desarrumados, contudo incrivelmente lindos, como se os defeitos a enfeitassem da mesma forma.O cheiro de uísque ainda persiste em sua boca, agradeço por não ter medo de bebida, tive até mesmo coragem de beijá-la de manhã. Meus dedos pressionam as teclas da máquina, mecanicamente, pois minha mente está nela, meus olhos ainda não a deixaram, estou revezando os olhares e ela simplesmente não vê isso, não que eu queira muito, talvez fosse legal. Acabei meu cigarro, não fedi a roupa com esse triste aroma, estou nu.Estou rindo das minhas frases, rindo ainda mais do nada que estou escrevendo, apenas senti vontade de colocar coisas no papel, não sei o que houve!......
Sei sim, ela.
Fiquei olhando a máquina por um tempo, pensando sobre o que eu estava fazendo sentado à frente dela, eu já sabia, melhor, eu sei. Na verdade, eu não gostaria de assumir, é muito assustador, apesar da fragilidade do assunto ele me amedronta mais do que a morte que o cigarro possa causar.A chuva ainda não parou, ainda há aquele clima de aconchego no ar do meu quarto, o barulho nostálgico da máquina de escrever aumenta ainda mais esse sentimento.Ela se moveu três vezes, fez uns barulhos estranhos enquanto se mexia, eu não agüentaria viver com ela o resto da minha vida se ela fizer esses barulhos sempre. Será? Droga! As idéias estão pulando dos meus dedos, só tomarei conhecimento do que escrevi depois que parar e ler o texto. Acho que vou voltar para a cama, está convidativa. Mas talvez eu fique olhando até para ver quando ela vai acordar, saio antes que ela perceba e ficará tudo bem. Ela está se esticando na cama, são movimentos sedutores.........droga, vou para a cozinha !.......Não sei o motivo pelo qual escrevi isso....

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O fim.

A doce morte

O cavalo andava vagaroso, altivo, parecia perceber a vitória que tivera, ele também fazia parte dela.Os olhos negros fitavam o horizonte que enegrecia, parecia anunciá-la para todos os cantos.Ela trazia consigo a dor, a coragem tremia diante dela, muitos acharam que eram mais fortes, mas eram tolos, todos são antes de enfrentá-la.

Os passos ficavam mais lentos, findavam. O suspense do silêncio tomava o ar ao redor dela.O pé descalço tocou o solo encharcado de sangue.Cada centímetro colorido pelos resquícios da guerra, corpos inertes, olhares vazios de morte ao céu.Ela não se importava, apenas tinha um trabalho a fazer.O vestido cobriu seus pés, caiu por sobre a terra rubra. Os cabelos escuros foram movidos por uma brisa de anunciação, fria, sem sentimento, vazia, as chamas pareciam brotar em meio os espaços dos fios. Séria, sem expressão, uma estátua com movimentos, andou em direção a ele, sim, ele não tinha nome, tinha apenas destino.A linha fina e frágil da vida humana ainda fluía dele para as mãos das fiandeiras.Inspirou o ar banhado a sangue e podridão de corpos em decomposição.Ergueu a mão com a espada, o metal nem ao menos reluzia, o sangue de outros ainda estavam cobrindo a frieza do material. Nenhum grito, nenhum suspiro, apenas o silêncio, até que a espada chegasse no novelo dele e findasse com o fio.Era o fim.O último, o final, o objetivo.Nada de bradar aos ventos a isso, não tinha que cantar seus feitos, era apenas trabalho.

Quanto a ele.

Ele acabara de ver a doce morte, sentir o metal acalentador de sofrimentos, ouvir o último suspiro.A negra imagem parou em meio aquele lugar, observou seus feitos, não sabia se deveria se orgulhar ou se deveria se rebelar, então apenas observou, viu a ela mesma em todos os cantos. Sentiu o sabor de ser o fim.

Imagem de Kyri Koniotou,retirada de epilogue.net

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O balanço das árvores

Entenda o balançar da floresta

Os vultos retorcidos por entre a névoa, folhas que alcançam o céu.Causam-me tanto medo ao mesmo tempo que convidam-me a me aproximar.O cerco da névoa parece tentar me impedir de entrar, mantém o medo úmido em minha alma.Lentamente meus passos me guiam rumo a ela, a multidão de formas e segredos.As velhas árvores parecem tentar manter um baú cheio de histórias às escondidas, em algum lugar.As cascas enrugadas inspiram respeito e remetem minha mente ao passado, buscando pequenos contos com finais vagos.Sento-me, deixo que a névoa acaricie todo o meu corpo, não preciso estar de olhos abertos, talvez eles aumentem meus medos.Estão fechados, apenas meus ouvidos procuram sinais.Uma paz estranha invade-me, toma o lugar do temor.Sinto que o passado está entrando em cada orifício de meu corpo.Uma brisa leve move as árvores, como boas aprendizes não se sentem orgulhosas a dobrar seus galhos diante a altivez do vento.Os cabelos verdes movem-se junto, sonoras palavras que contam-me suas histórias, clamam a vida, contam-me sobre a morte, relembram momentos felizes.Percebo, enfim, que não devo temer.Todas as histórias são importantes, cada uma com seu significado único.Entendi o que elas diziam.Não se precisa temer do que vem a frente, são apenas mais histórias que as árvores guardarão em baús, para que os próximos que tenham a paciência de ouvir, escutem histórias como eu as escutei.
JBC

Obrigado Thata pela música......adorei......Ajudou muito mesmo....;*

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Katrine.....a música da chuva!


Chuva.Pingos chorosos do céu desciam a terra para banhar-lhe com sua água sagrada, talvez lavasse muitos dos pecados das pessoas, talvez.Uma multidão de guarda-chuvas se abriam ao longo da grande calçada de Nebula, era o horário de todos irem trabalhar, a noite parecia chegar mais cedo, a tempestade tampara o sol antes da hora, mas os empresários não tinham tempo para parar.Uma leve música parecia tomar um pequeno espaço da calçada, os guarda-chuvas se moviam como se estranhasse a presença de notas por ali, em meio aos negros empecilhos da chuva.Como uma linda rosa Katrine desabrochava, seu vestido vermelho molhado dava uma pequena quantidade de cor aquele ambiente monótono, a música que ela pusera alta de propósito embalava sua dança em meio a calçada.A dança não era algo muito treinado, apenas a expressão de uma jovem que via muito mais no mundo que o dinheiro que movia Nebula.

Deixava sair pela sua garganta as belas palavras da música que ouvia, rodopiando devagar para não acertar ninguém.A chuva passava pelo seu corpo, lavando-lhe a alma, limpando os sentimentos ruins e revelando-lhe os bons.Poucas pessoas que passavam ali enxergaram a menina que tentava se libertar daquele ambiente monocromático, chato.Apenas viam, nem mesmo estranhavam em demasia aquela atitude, o mundo já tinha visto de muitas coisas.Katrine não se importava, queria aproveitar a chuva, talvez contagiasse alguém com as cores, com a beleza além do dinheiro e da estética de laboratório.Prosseguiu, andando enquanto cantava, saltando, dançando ao ritmo da música, vagarosa, de valor reflexivo.

Olhava aquelas pessoas sem graça profundamente.Apesar de não ter curiosidade de saber o que faziam ali, tinha a de saber de como chegaram ali, se tinham sonhos, se eram felizes.Mas ninguém parecia se preocupar em responder-lhe o olhar.Andou um pouco mais, procurando corações debaixo daqueles guarda-chuvas que pareciam proteger muito mais que simples pessoas da chuva, aparentavam muito mais escondê-las de suas próprias vidas.Os olhos azuis passavam por cada face sem sorrisos, por cada lábio sério, por cada olho fixo no chão, apenas um quebrara aquilo.Um misterioso sorriso se abria a frente, os olhos alegres pediam algum tipo de afago.O sorriso fora correspondido, os lábios se abriram deixando que uma alegria quase não compartilhada viesse a tona, os olhos buscaram um ao outro.

Vagarosamente se aproximaram, uma breve virada no pescoço, sorrisos mais largos e olhos quase cúmplices de um mesmo sentimento.Contudo, aquela escuridão, aqueles malditos guarda-chuvas negros engoliram o raio de felicidade que encontrara.Fora tão rápido, nada além de sorrisos, apesar disso ser muito.Ele não podia parar, Nebula não deixava, os guarda-chuvas também não.Katrine prosseguiu, tinha que chegar até o local marcado, talvez Nebula a estivesse ingerindo também.Acelerou o passo, o sorriso lembrado diversas vezes dava a ela ainda mais alegria.Mandou um beijo para trás, para aquele que não tinha nome apesar dele ter desaparecido.Foi em frente.


Fiz este texto depois de assistir ao clipe da musica I turn to you da Christina Aguilera, é linda a música e me inspirou! ai ai......

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

June, A caída.


O vento soprava com certa força, penas voavam pelas árvores dançando no ar ao sabor do vento, sem qualquer direção definida.Apenas voavam.A lua aparecia por entre as diversas nuvens que cobriam o manto noturno das estrelas, negando a presença dos belos pontos brilhantes.Os olhos marejados pelas lágrimas precipitavam na face, escorrendo pela pele enrubescida e delicada.Pequenas gotas que marcavam uma triste noite.Os braços frágeis tentavam envolver o próprio corpo, impedindo que o calor saísse, que a deixasse como tantas outras coisas que tivera.As pernas buscavam entrar por debaixo do vestido branco em trapos, buscando um local quente para se aquecerem.Não queriam andar, não mais.O escuro da floresta assustava-a, ao menos na clareira lhe restava a luz breve da lua.As asas abertas aproximavam-se do corpo, queria aconchegá-lo no calor das leves plumas, mesmo que elas estivessem caindo, ainda lhe restaria algo.O vento levava os cabelos brancos a flutuar no ar, cobrindo-lhe a face tristonha.Não havia nada o que fazer, não se lembrava de que tinha que fazer, algo dentro de si dizia que tinha culpa, que tinha feito algo errado.Seus olhos enchiam ainda mais de tristeza ao saber disso, ao sentir isso.Tentou afastar os pensamentos ruins que lhe rondavam a mente, queria sentir-se melhor.Fechou-se em seu próprio corpo, deixou que ele se esquentasse, o frio teria que ceder a luz da manhã, ou não.Vagarosamente deixou que seu corpo caísse, que o chão a convidasse para descansar junto a ele.Já não agüentava mais chorar, já não queria mais sentir aquilo.Queria apenas dormir, descansar, se lembrar de algo que a levasse a dar um sentido para aquilo tudo que lhe acontecia.As penas continuavam a abandoná-la, iam flutuando pelo ar.O corpo cansado de June pousava no chão, sua mente abandonava a consciência, deixava que a paz chegasse, que o sono viesse.Os olhos prateados fecharam-se, as duas ultimas gotas de lágrimas escorreram, enfim o vento cedeu.Ela adormecera por entre as raízes de uma árvore, fazendo do chão sua cama e do céu a sua coberta.


(Imagem gentilmente doada por alguém que não conheço)